Mas a obra aí ficou. E Gil Vicente passou a ser as mais de quarenta peças que escreveu, uma inspiração para muitas outras obras e sinónimo de desconfiança na escola e de sorriso escondido nos espaços dos versos e nos nomes das personagens. E muito, muito mais que isso…
Depois muito mais tarde, voltei a encontrar-me com o Mestre. Fiz como actor cinco peças dele, e algumas brincadeiras com textos seus. Li todos os textos que escreveu em português ou os que misturou com castelhano. Os que escreveu só em castelhano, confesso, passei à frente. Quando Portugal se juntar a Espanha, lá vou eu ter que os ler…
Não tenho saudades do tempo em que na escola o estudei. Uma escola que me falava muito dele mas não me dizia que Fernando Pessoa e muitos outros autores que descobri depois, tinham existido. E, não pondo em causa a importância de estudar Gil Vicente na escola, devo dizer que só lhe achei graça quando as suas palavras, as suas ideias, as suas personagens, as suas estórias ecoavam e se moviam no palco.
Este espectáculo acontece por isso. Para professores e alunos, Gil Vicente é, normalmente, um quebra-cabeças, uma chatice, um martírio. Mas ele tem outro lado. Aquele que nos fala das nossas vizinhas, dos nossos dramas existenciais, do prazer de inventar palavras, de brincar com os outros. Aquele que nos fala de um tempo de memória, antigo, longínquo e que nos liga a uma identidade mais vasta e que, tantas vezes na sua obra, parece contemporâneo do nosso. Mas essa qualidade da sua obra só se mostra em movimento, ao vivo, no teatro.
Se o teatro tem alguma função pedagógica parece-me ser esta: dar a ver as obras noutra perspectiva. Complicar o que já não é simples. Porque não tenham dúvidas: demorámos mais tempo a fazer este trabalho do que todo o tempo de aulas de Português que os alunos têm durante um ano. Seria para nós um grande motivo de orgulho se soubéssemos que este trabalho contribuiu para iluminar outras abordagens da obra de Gil Vicente, mas já ficaríamos muito contentes se tivesse sido um divertimento colectivo, uma viagem e despertasse uma curiosidade a ser concretizada lá mais para diante.
de 13 de Setembro a 10 de Novembro, no Museu dos Transportes
Sessões para escolas _ Segunda a Sexta: 10h30 e 15h00
Público Geral _ 13, 14, 15, 20, 21 e 22 de Setembro; 5, 6 e 27 de Outubro; 3 e 10 de Novembro: 21h30
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Preço dos bilhetes:
Normal _ 8€
Estudante / Criança _ 5€
Grupo de 10 ou + pessoas _ 3€ cada um
239 714 013 / 91 461 73 83 / geral@teatrao.com


